quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Catecismo Online: "Morto e sepultado" (Parte IV)


Agora devemos ter noção de que os sofrimentos de Cristo foram cruéis. De per si, bastaria levar em conta o suor que, do Corpo do Senhor, "corria até a terra em gotas de sangue", quando ele se pôs a considerar os horrorosos tormentos que pouco depois haveria de sofrer.





Desse fato, cada um de nós já pode compreender como aquela dor atingia o auge. Ora, se a consideração dos males iminentes foi tão acerba, como se vê pelo suor de sangue, que não terá sido a Paixão propriamente dita? Não resta a menor dúvida, Cristo Nosso Senhor realmente sentiu as maiores dores tanto do corpo, como da alma.





Em primeiro lugar, não houve parte do corpo que não sentisse dores extremas. Mãos e pés, ei-los fixados com pregos no lenho da Cruz; a cabeça ponteada de espinhos e ferida com uma cana; o rosto, desfeito de escarros e moído de pancadas; o corpo todo, derreado de açoites.





De mais a mais, homens de todas as raças e condições "conspiraram contra seu Senhor e seu Ungido" (Sal 2,2). Eram gentios e judeus os que instigaram, promoveram, e executaram a Paixão de Cristo. Judas traiu-o, Pedro renegou-o, todos os outros discípulos o abandonaram.





Na própria cruz, que haveremos de lamentar mais ao vivo? A crueza das dores, a afronta do pelourinho, ou ambas as coisas ao mesmo tempo?





Não se podia, realmente, inventar nenhum gênero de morte mais vergonhoso e mais cruel do que esse, próprio dos maiores e perversos e criminosos; a lentidão da agonia tornava mais aguda a sensação das dores e torturas que, per si, eram sobremaneira violentas.





O que fazia crescer ainda o ardor das penas era a própria compleição de Jesus Cristo. Formado pela virtude do Espírito Santo, era muito mais perfeito e delicado do que o pode ser jamais o corpo de outros homens. Tinha, portanto, maior sensibilidade; sofria mais vivamente todas as grandes torturas.





Quanto a dor íntima da alma, ninguém pode contestar que Cristo a sentiu em sumo grau de intensidade. Aos Santos, que padeciam dores e tormentos, Deus nunca lhes recusou consolações espirituais, para que pudessem suportar, inabaláveis, a violência das torturas.





Muitos houve, entre eles, que até exultavam de íntima satisfação. De si mesmo dizia o apóstolo: "regozijo-me em tudo quanto devo sofrer por vós; e completo em minha carne o que falta aos sofrimentos de Cristo, a bem de seu corpo que é a Igreja" (Col 1,24). E noutro lugar: "Estou cheio de consolação, e transbordo de alegria em todas as nossas tribulações" (2Cor 7,4).





Cristo Nosso Senhor não quis, todavia, temperar com nenhum alívio o cálice amarguíssimo que bebeu, no transe da Paixão (Mt 26,39). Tendo Assumido a natureza humana, fê-la sentir todos os tormentos, como se foram puro homem, que não Deus ao mesmo tempo.





Agora, resta apenas entendermos as graças e frutos que recebemos da Paixão do Senhor. Em primeiro lugar, a Paixão do Senhor nos livrou do pecado, conforme declara São João: "Amou-nos, e no seu sangue nos lavou de nossos pecados" (Apoc 1,5). E o Apóstolo diz também: "Restituiu-vos a vida, perdoou-vos todos os pecados, cancelando e pregando na cruz o decreto de condenação, que contra nós fora lavrado" (Col 2,13-14).





Depois, livrou-nos da tirania do Demônio. O Senhor mesmo disse: "Agora é o julgamento do mundo. O príncipe deste mundo será lançado para fora. E eu atrairei tudo e todos a mim, quando for elevado da terra" (Jo 12,31-32).





Em seguida, satisfez a pena devida pelos nossos pecados (Rom, 5,10 / 2Cor 5,19). Então, como não se podia oferecer outro sacrifício mais agradável e mais bem aceito aos olhos de Deus, reconciliou-nos com o Pai (2Cor 5,19), a quem aplacou e tornou propício para conosco.


(Fonte: Catecismo da Igreja Católica - 1962 - Ed. Vozes)

2 comentários:

Paralaxe disse...

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Pedro da Encarnação disse...

Ficamos gratos pelo reconhecimento! Muito importante um site que valorize a riqueza de nossa amada língua portuguesa!
Feliz natal!