



As consolações oferecem indubitavelmente as suas vantagens:
Facilitam o conhecimento de Deus: a imaginação, auxiliada pela graça, compraz-se em representar as amabilidades divinas, o coração saboreia-as; e então a alma sente gosto na oração e em longas meditações, e compreende melhor a bondade de Deus.
Contribuem para fortalecer a vontade: esta, não encontrando já, nas faculdades inferiores, obstáculos, antes pelo contrário auxiliares preciosos, desprende-se facilmente das criaturas, ama a Deus com maior ardor e toma enérgicas soluções que mais facilmente observa, graças aos auxílios alcançados pela oração; amando a Deus de modo sensível, suporta generosamente os pequenos sacrifícios de cada dia, impondo-se até voluntariamente algumas mortificações.
Ajudam-nos a contrair hábitos de recolhimento, oração, obediência, amor a Deus que até certo ponto perseverarão, depois de desaparecidas as consolações.
Tem, contudo, também os seus perigos estas consolações:
Provocam uma espécie de gula espiritual, que faz que a alma se prenda mais às consolações de Deus do que ao Deus das consolações, a tal ponto que, mal desaparecem, logo se descuram os exercícios e os deveres de estado. Até o momento em que delas desfrutam essas almas, está longe de ser sólida a sua devoção: quantas vezes, sobre uma torrente de lágrimas sobre a paixão de Nosso Salvador, lhe recusam o sacrifício de tal amizade sensível, de tal privação! Ora, não há virtude sólida senão quando o amor de Deus vai até o sacrifício inclusivamente: "Há muitas almas que tem destas ternuras e consolações, e nem por isso deixam de ser muito viciosas; e por conseguinte não tem verdadeiro amor de Deus nem muito menos verdadeira devoção" (São Francisco de Sales, Vie devóte, IV).
Favorecem muitas vezes a soberba sob uma ou outra forma: 1) a vã complacência em si mesmo: quando um sente consolação e facilidade na oração, crê facilmente que já é santo, sendo que não passa ainda de noviço da perfeição; 2) Vaidade: sente-se o homem enorme desejo de falar aos outros destas consolações (na forma de testemunho), para se dar importância; e então muitas vezes Deus o priva dessas consolações por tempo notável; 3) a presunção: jugando-se forte, invencível, expõe-se por vezes ao perigo ou ao menos começa a repousar, quando seria necessário dobrar os esforços para avançar.
Para se tirar proveito das consolações divinas e escapar aos perigos que acabamos de assinalar, eis as regras que devemos seguir:
(Fonte: Compêndio de Teologia Ascética e Mística - Apostolado da Imprensa - 1961)